sábado, 20 de outubro de 2012

Pobre

Uma das primeiras impressões que causava a figura ascética do Pe. Rodolfo era a extrema pobreza que transparecia de todo o seu exterior. E essa impressão fazia-se edificação quando se evidenciava que a aparência externa era apenas a revelação da grande riqueza interior, de um compromisso religioso plenamente assumido. Riqueza de um homem verdadeiramente de Deus, de um apóstolo inflamado de zelo, de uma figura humana que unia à austeridade do porte um trato encantador e uma acessibilidade difícil de explicar.

A sua era uma pobreza-amor que, nada tendo de próprio, encontrava recursos para socorrer os necessitados.

Como aconteceu com um pobre viúva de Karwina (Polônia), de nome Joana Piskova. Muito doente, foi atendida pelo Pe. Rodolfo, que lhe administrou os sacramentos. Vendo que repousava em mísera enxerga, sem travesseiro, coberta tão somente por um velho sobretudo, levou-lhe o próprio cobertor e um travesseiro. Levava-lhe também todas as manhãssua refeição matinal, privando-se dela. E ele, que dormia sobre um banco, passou a cobrir-se com um simples cobertor. E, como se não bastasse, flagelava-se também...


Desapegado de tudo, viveu com perfeita coerência sua profissão de pobreza, sem jamais permitir-se qualquer excessão. Pobre dos pés a cabeça, tudo nele era pobre.

Jamais pediu qualquer espécie de roupa para seu uso, mesmo em casas onde havia escola de alfaiataria. Vestia trajes relegados por outros, de Irmãos salesianos falecidos, postos à disposição da comunidade. Mas dessas vestes maljeitosas e mal remendadas por ele mesmo (por vezes com linha branca e até com barbante) emergia-lhe o rosto sereno, concentrado, vez por outra sorridente, que lhe iluminava a figura austera, recobrindo-a de um não-sei-quê de sobrenatural.

Voltando da guerra, em que servira como capelão militar, continuou a usar os sapatos de soldados. Reforçava o salto ou a sola de velhos sapatos para que durassem mais. Os cadarços eram, de ordinário, barbantes tingidos com tinta.

Usava uma batina muito gasta, remendada. Mas vestia-a com dignidade.

Em seu quarto havia apenas o necessário. E nem todo. No de São José dos Campos havia lugar apenas para a cama e uma estante pendente da parede. A cama estava sempre cheia de livros e outros objetos. Dormia no chão. Comentou certa vez seu médico, o Dr. Nelson Silveira D'Avila: "Fui esta semana visitar o Pe. Rodolfo. Basta ver a pobreza do seu quarto: havia ali o estritamente necessário. Fico impressionado ao ver a pobreza daquele homem".

Quando chegou ao Brasil trazia toda a sua bagagem numa mochila presa às costas. Com a mochila apresentou-se aos superiores em São Paulo, e com ela partiu para São Feliciano -RS.

Quando chegou a Lavrinhas-SP, apresentou-se ao diretor, fez profunda reverência, beijou-lhe a mão, e sem mais preâmbulos: "Aqui estou, quais são as minhas obrigações? Quero trabalhar!". O superior convidou-o a uma merenda e depois perguntou pela bagagem. "Não tenho". Pensando que não houvesse compreendido, indagou pela mala, se havia deixado alguma coisa na estação. "Não tenho nada, traga tudo comigo". Trazia toda a roupa no corpo. Uma única muda de roupa gasta pelo uso, sapatos bastante batidos, um pequeno embrulho com os volumes do breviário, um livro de leitura espiritual e outro de meditação... Na mesma tarde começou a atender confissões. Também quando chegou a São Paulo trazia um pacote tudo quanto possuía.

Quando morreu não encontraram sequer um par de meias para cobrir-lhe dignamente os pés. Os próprios doentes se encarregaram de providenciar.

Foi assim o "pobre Pe. Rodolfo". Que recolhia os pedaços de pão que encontrava pelos pátios dos colégios ou pelas calçadas das ruas, servindo-se deles às refeições. As mães recomendavam aos filhos: "Não joguem for ao pão, porque depois vem o padre santo para recolher..." Mendigo de Deus! Também por isso um "predileto de Deus".

Texto de Pe. Fausto Santa Catarina.

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