segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pe. Rodolfo - o Professor



Quando Nosso Senhor escolheu os apóstolos para fundamentarem a sua Igreja deu-lhes esta palavra de ordem: ide. 

Pe. Rodolfo foi bem o homem que caminhava. A graça de Deus em marcha, encarnada naquela figura bem-aventurada do enviado evangelizante. 

Em 1936 foi mandado para Lavrinhas, no Estado de São Paulo. Lavrinhas, minúscula cidade às margens do Rio Paraíba, perto da fronteira com o Estado do Rio de Janeiro. Ali os salesianos mantêm um de seus seminários menores, a mais famosa casa de formação da Província do sul do Brasil.
Como o Pe. Rodolfo nunca soube dizer “não”, quanto antes o compareceu no seminário. Trazia por toda bagagem um embrulho que continha os volume do breviário, dois livros de leitura meditação. Sobre o corpo envergava duas velhas batinas superpostas, e por cima de tudo um vetusto guarda-pó. Calçava sapatos paupérrimos. Chapéu surrado, herança de algum irmão falecido. Deus lhe bastava.

Ia como confessor, cargo para o qual estava eximiamente habilitado. E também professor, incumbência inédita em sua vida. Era então o que mais trabalhava. Levantando-se às três horas ia para a Igreja dizer o breviário até as 4h30. Depois abria a porta e se punha no confessionário. 

Tive a oportunidade de conviver com ele como seminarista que eu era por aquela época. O mais das vezes tínhamos ocasião de avizinhá-lo apenas nas aulas, na santa confissão e nos passeios de quinta-feira.

Dava aulas de desenhos, de geografia e de matemática. Exigia absoluto silêncio durante as lições. Nos exames passava as questões e se ajoelhava em seguida ao lado da cátedra no duro ladrilho, a recitar o breviário ou o terço. E aquele edificante espetáculo geralmente desfazia nos alunos todas as intenções de usar subsídios fraudulentos.

Uma vez nos confidenciou que rezava naquelas circunstâncias pelo bom êxito de nossas provas. Ficamos muito satisfeitos, confiados na eficácia de suas preces, já que não podíamos contar com sua camaradagem. Era bem conhecido como por demais justo para descambar na mínima parcialidade.

Não permitia nenhum gracejo de nossa parte e não dava nunca ocasião de hilaridade. O único alívio que concedia aos nossos nervos irrequietos solicitados pelo frescor das manhãs de junho era um pouco de ginástica, em classe mesmo no início da lição. (...) O santo mestre tinha adivinhado na sua simplicidade o nosso fraco e o início de sua aula era evidentemente desejado.

Na classe de desenho, com tenacidade não comum exigia que traçássemos linhas retas, sem régua. Era uma inovação dolorosa e nos custava obedecer. Se alguém transgredia e usava quaisquer adminículos (o nosso desespero chegava a encontrá-lo até nas margens de nossas gravatas) o professor estava sempre ali, a reprovar com seus bons modos, batendo sem ruído as palmas das mãos observando o transgressor com seu verbo do infinito e sua bondade também quase infinita: “não reguar... não reguar”.

Se um outro em vez de uma linha reta traçasse uma sinuosa não devia apagar com a borracha, mas prosseguir implacavelmente a fileira dos famigerados segmentos verticais. A borracha era abolida; porém “de contrabando”, quase sempre se tentava esfregar o próprio erro, quando... Lá vinha o austero professor com seu verbo infinito e sua enérgica bondade quase infinita: “não borrachar... não borrachar”.

Entretanto para nós, as suas lições, realmente formativas, eram 45 minutos de verdadeiro exercício de vontade.  Independentemente, porém de seu proceder severo, havia, sobretudo a sua virtude que nos bloqueava naturalmente a vivacidade.

Éramos possuídos de um senso de respeito pela sua figura ascética e penitente; tínhamos a impressão de que uma perturbação qualquer diante dele assumia as proporções de sacrilégio. Grande parte dos alunos se confessava com o Pe. Rodolfo. (...)

Mostrava-se rigoroso na nota. Geralmente era da opinião que só Nosso Senhor merecia 10... E aceitava qualquer aula que lhe mandassem ministrar, sem nenhuma objeção. Era extremamente devotado. Preparava-se com inapontável esmero, e apesar de suas intensas fadigas no ministério, dava 28 aulas semanais. (...)

O Pe. Rodolfo salientou-se como educador, no sentido de aproveitar todas as ocasiões oportunas para corrigir os erros dos alunos. Ele acreditava na obra da graça, bem sabendo que quem opera em nossas almas é o Espírito Santo. Mas a graça não destrói a natureza, a qual permanece com as suas más tendências e quem não a perde não a pode salvar. A sua vida era uma encarnação do “abneget semetipsum”, (renuncia-se ti mesmo). E o Evangelho que era verdadeiro para ele, devia ser também para os outros.

Texto do Pe. Ébion de Lima.
Capítulo XII - Livro: Rodolfo Komórek, o “Padre Santo” – 2ª Edição - Editora Salesiana, São Paulo, 1972

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